quinta-feira, 12 de maio de 2011

Um conto

O automático do forno quebrou e homem do conserto não vem.
Na 1ª queima de alto temperatura com o tal sistema automático, tudo correu perfeito durante as nove horas de forno ligado o pirômetro marcava 1320º C.
Mas uma hora depois do forno ter desligado, ele voltou a ligar à toda potência , por mais uma hora atingiu 1312º graus . Quarenta e oito horas depois, abri o forno , estavam lá imensos cristais de titânio. Formações caleidoscópicas!
Na 2º queima , dez horas depois de começada, o forno estava a 1300º e só alcançou 1320º subindo muito devagarzinho. Foram quase duas horas. O resultado: esmaltes escorridos , gotas gordas. Verdadeiras paisagens!
Na 3ª vez, marcando 1150º a gaveta da chaminé se fechou. Foi-se abrindo tão devagar que aos 1312º só sete centímetros de chaminé deixavam o forno respirar. Só sete! O forno desligou e não acendeu mais. Encontrei bordas crostadas, fundos bronzeados e paredes deformadas. Estética imperfeita, humana!
Enrolei todas as peças da múltipla produção nos jornais velhos que encontrei. Coloquei no carrinho de mão e fui para praça. Voltei de a pé. disposta a começar tudo de novo e diferente.
O homem do conserto não veio e não vem. Não vem mais!
A variáveis não serão limitadas a um conjunto finito, a nenhuma queima pré estabelecida. E assim, quem olhar será capaz de ver caleidoscópios, paisagens e sentir uma ligação imperfeita, humana com o objeto . 
Uma sutil fruição tátil-estética forjada pelo fogo.

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